A Gênese de um Ideal: O relato de Frank Arthur Marshall (1927)
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O presente recorte de jornal, resgatado em 22 de fevereiro de 2026 durante uma profunda pesquisa histórica sobre a vida e obra de Frank Arthur Marshall, revela-se um tesouro documental de valor inestimável. Para nossa surpresa e satisfação, ao traduzirmos as palavras originais do "Tio" Marshall, somos transportados para o epicentro da criação de nossa Ordem. É possível sentir a alegria vibrante com que ele descreve, não o orgulho de sua própria autoria, mas a gratidão por ter sido o instrumento escolhido para tal confecção.

Marshall nos presenteia com esclarecimentos cruciais sobre os pilares da Ordem DeMolay. De maneira espiritualizada, ele deixa claro que a obra transcendeu sua pena, pertencendo agora à própria Ordem. O relato define com precisão a divisão do gênio criativo: enquanto Marshall deu alma e verbo aos Graus, as movimentações de chão e as linhas litúrgicas foram idealizadas pelo "Dad" Land, o estrategista executivo da visão DeMolay.

Neste período (1927), vivíamos a transição para a quarta — e talvez mais debatida — edição dos Trabalhos de Ritual, sendo esta a primeira a contemplar o solene Serviço de Maioridade. O texto ainda desvenda curiosidades fundamentais: a origem do termo "Conselheiro", a escolha da grafia "DeMolay" em distinção ao Rito Escocês, e a preocupação ferrenha em garantir que a Ordem possuísse identidade própria, evitando ser vista meramente como uma "Maçonaria Juvenil"
 
KANSAS CITY JOURNAL-POST. DOMINGO, 30 DE JANEIRO DE 1927

Autor do Impressionante Ritual DeMolay narra como os Ritos foram escritos: Frank A. Marshall mal sonhava que seu cerimonial seria a inspiração para centenas de milhares de jovens.

TODOS sabem que a Ordem DeMolay nasceu em Kansas City. Naturalmente, todos os DeMolays e Maçons sabem que o ritual para a ordem foi escrito por Frank A. Marshall, um redator editorial do The Journal-Post. No entanto, frequentemente perguntam ao Sr. Marshall como e por que ele veio a escrever este ritual, considerado por muitos como um dos mais belos e impressionantes já escritos. O Sr. Marshall, em resposta a estes pedidos, relatou na história a seguir as circunstâncias que cercaram a sua redação do ritual para a Ordem DeMolay, com sua membresia na casa das centenas de milhares de jovens e seus capítulos em cada cidade da América e em muitos países estrangeiros.
 
Por FRANK A. MARSHALL
 
Muitas vezes me perguntaram: "Como você chegou a escrever o ritual DeMolay?". Os fatos puros podem ser declarados brevemente: escrevi-o porque Frank S. Land me pediu para fazê-lo e porque Deus Todo-Poderoso, a quem agradeci em meu coração mil vezes, deu-me o impulso para responder à oportunidade que o pedido envolvia.

Mas, por trás dos fatos puros, existem outros que podem ser de interesse para as dezenas de milhares de DeMolays para quem meu nome significa menos que nada, enquanto a ordem e seu ritual significam tudo.

Conheci Frank S. Land quando... isto é, quando ele era um membro fervoroso e dedicado da Loja Ivanhoe nº 446, A.F. & A.M.¹, Diácono Júnior (2º Diácono) em exercício e proprietário de um negócio totalmente alheio às atividades Maçônicas ou DeMolay. Prezei sua amizade, que foi consolidada pelas associações formadas quando realizei um trabalho ritualístico considerável na Ivanhoe. Eu era membro da Loja Westport nº 340, mas entre as duas lojas as relações eram particularmente estreitas.

Logo após nosso primeiro contato, o Sr. Land abandonou seus negócios particulares para tornar-se secretário da associação de emprego e auxílio do Rito Escocês. De suas atividades nessa função, ouvi comparativamente pouco, embora nossas relações pessoais tenham se tornado mais próximas através da associação na linha de oficiais do Conselho DeMolai de Cavaleiros Kadosh² nos Corpos do Rito Escocês do Vale de Kansas City.

DeMolay, seu Herói

Permitam-me dizer, parenteticamente, que muitos anos antes de eu me tornar um Maçom, Jacques DeMolay já era um de meus heróis. Há quarenta anos ou mais, escrevi um pequeno "credo" particular no qual concedi a DeMolay um lugar de destaque como um exemplo de lealdade à consciência.

Quando, portanto, tornei-me membro do conselho DeMolai (notar-se-á, de passagem, que o nome do Corpo do Consistório é grafado com "i" em vez de "y")³, DeMolay apelou especialmente à minha imaginação. Como membro da linha, enquanto o Sr. Land era comandante, fui me sentindo cada vez mais atraído por DeMolay, preparando-me, talvez inconscientemente, para o trabalho que estava por vir.

No início do verão de 1919, o Sr. Land convidou-me para escrever um ritual para o pequeno grupo de rapazes que ele havia reunido em torno de si no curso de seu trabalho, o qual frequentemente o colocava em contato com lares onde a necessidade de uma influência edificante era nitidamente definida. Ele explicou, de modo geral e também com alguns detalhes, exatamente o que tinha em mente e incutiu em mim o instinto dramático da natureza juvenil%u2074, que ansiava por expressão através de um ritual.

Como sugeri anteriormente, agradeci a Deus mil vezes por ter o Irmão Land me honrado com o convite, mas especialmente por Ele ter colocado em meu coração o sentimento daquela necessidade e por ter tentado atendê-la com o melhor de minha habilidade. De certa forma, eu era a escolha lógica para tal tarefa do ponto de vista do Sr. Land, pois eu era um dos poucos homens de jornal nos Corpos do Rito Escocês, embora de modo algum o único escritor. Contudo, qualquer que fosse a adequação da situação, fui convidado, aceitei e escrevi um ritual que nenhum de nós jamais sonhou que seria um dos pontos de união para um exército de centenas de milhares de jovens americanos e rapazes em outras terras.

Eu não tive filhos homens, embora meu lar tenha sido abençoado com duas queridas filhas. Tenho dois netos pelos quais oro para que viva o suficiente para vê-los como DeMolays.

Evitando a Fraseologia Maçônica

Talvez minha maior tarefa no início tenha sido evitar a fraseologia maçônica, pois nos dias pioneiros o medo de copiar a Maçonaria era muito real e havia uma oposição muito definida a qualquer coisa que sugerisse qualquer conexão com a Maçonaria ou que a DeMolay aparecesse como uma preparação para futuros Maçons.

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Confesso que por semanas nada de marcante me ocorreu até que a pequena inspiração da Coroa da Juventude%u2075 forneceu as chaves para o grau iniciático. Daquele momento em diante, o ritual virtualmente "escreveu a si mesmo". O Leste como a manhã da vida, o Sul como a estação da masculinidade e o Oeste com suas lições solenes foram bastante óbvios.

Eu escrevi propositalmente o grau DeMolay em uma tonalidade muito diferente das didáticas do grau iniciático. Tentei fazê-lo apelar ao instinto dramático inerente a todos os rapazes e fazê-lo evitar qualquer monotonia quando comparado com o grau iniciático.

De tempos em tempos, o Sr. Land sugeriu mudanças verbais e interpolações nas seções fundamentais do ritual. Ele mais tarde solicitou um serviço memorial, que é o meu favorito pessoal. Ele solicitou um serviço de instituição para iniciar novos capítulos e, então, pediu um serviço de maioridade para se despedir dos DeMolays que atingissem a idade limite. Ainda mais tarde, ele pediu um serviço fúnebre, à parte do memorial, e por último o grau da Legião de Honra. A todas estas demandas eu respondi com tudo o que havia em mim, e, tal como ele é, o ritual de DeMolay é a minha contribuição mais reverente ao bem-estar da comunidade, do estado e da nação.

Uma das Emoções da Vida

Tive muitos momentos doces em minha vida, mas uma das maiores alegrias que já experimentei me foi concedida quando li meu primeiro rascunho da abertura e encerramento, e dos graus iniciático e DeMolay para o Sr. Land. O local exato onde o li possui uma santidade para mim. O Sr. Land sentou-se à mesa do secretário no auditório do templo do rito escocês na rua Quinze com a avenida Troost, e eu me sentei no degrau.

Parecia-me que eu podia ver a grande visão que estava por se tornar realidade formandose na mente do Sr. Land enquanto eu lhe revelava o ritual à medida que ele progredia. Seu gênio extraordinário para detalhes executivos permitiu-lhe desenvolver a movimentação ritualística (floorwork)%u2076 e os esplêndidos rapazes que exemplificaram o ritual sopraram nele o fôlego de vida, o que fez do meu primeiro testemunho do trabalho de grau outro dos marcos da minha vida.

O auditório do Rito Escocês em Kansas City será sempre um santuário para mim. Foi aqui que prestei os votos do Rito; em seu altar recebi um anel presenteado a mim pelos rapazes do capítulo Mãe e que é uma das minhas posses mais queridas. Naquele altar eu vi, pela primeira vez, esplêndidos jovens prestarem os votos de DeMolay e o ritual foi revelado de uma maneira que foi uma profecia do crescimento futuro, do qual nenhum de nós realmente sonhou no início.

De Semente a Floresta

Meu humilde lar na rua Jefferson, 4506, e especialmente o pinheiro e as grandes árvores de cerca viva no jardim da frente são lugares sagrados para mim, porque em minha casa e sob aquelas árvores o ritual DeMolay foi forjado na bigorna do meu coração e alma durante os meses de verão de 1919, conforme encontrei tempo entre os exigentes deveres diários de minha profissão.

Originalmente, chamei as unidades de "Conselhos" em vez de "capítulos", mas como eu era membro de um conselho DeMolai, foi mais lógico chamar os oficiais principais de "Conselheiros", simbolizando as funções consultivas de liderança.

Talvez se tivéssemos sonhado com as proporções futuras da Ordem DeMolay eu teria ficado horrorizado com a tarefa que assumi. No entanto, fiz o que pude. Tentei plantar uma pequena bolota (semente) que esperava que pudesse crescer e se tornar uma árvore sob a qual algumas centenas ou alguns milhares de rapazes encontrariam a sombra útil de uma inspiração para uma vida melhor. Que ela tenha crescido para uma grande floresta de sombra é a grande alegria da minha vida e da vida do Irmão Land e de todos os outros associados com o movimento nos dias iniciais e posteriores.

Eu também agradeci a Deus Todo-Poderoso mil vezes por Ele ter trazido em auxílio à DeMolay, em seus dias iniciais, o grande cérebro, o grande coração e alma e a maravilhosa influência do Ilustre Irmão Alexander G. Cochran%u2077 de St. Louis, soberano grande inspetor geral do Rito Escocês para o Missouri e grande mestre conselheiro da Ordem DeMolay. Em uma época em que até mesmo a indiferença em altos postos, por qualquer motivo, significaria o esquecimento para a DeMolay, ele foi inflamado pela visão do Irmão Land, e suas gentis palavras de recomendação pelos meus próprios esforços estiveram entre as memórias mais preciosas da minha associação com a ordem.

¹ A.F. & A.M.: Sigla para Ancient Free and Accepted Masons (Antigos Maçons Livres e Aceitos), designação tradicional das Grandes Lojas americanas.
² Conselho DeMolai de Cavaleiros Kadosh: Refere-se a um corpo de graus filosóficos do Rito Escocês para adultos. É aqui que Frank Land e Frank Marshall conviviam antes da criação da Ordem para jovens.
³ Grafia "DeMolai" vs "DeMolay": Marshall esclarece que a grafia com "i" era a usada pelo Rito Escocês na época; a versão com "y" foi a escolha definitiva para a organização juvenil.
%u2074 Instinto Dramático: Marshall e Land acreditavam que o ensinamento moral deveria ser "encenado" para ser absorvido pelo jovem, fugindo da monotonia de palestras teóricas.
%u2075 Coroa da Juventude: Metáfora para as Sete Virtudes Cardeais. Marshall indica que este foi o ponto de partida criativo para o primeiro grau.
%u2076 Movimentação Ritualística (Floorwork): Refere-se à coreografia e geometria dos passos dos oficiais no chão do capítulo, trabalho creditado ao gênio administrativo de Frank Land.
%u2077 Alexander G. Cochran: Sua influência foi determinante para a sobrevivência da Ordem, pois ele usou sua alta posição na Maçonaria para legitimar e proteger o movimento juvenil em seu nascimento.

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Ao final deste relato, o que emerge não é apenas a história de um ritual, mas a história de uma entrega. Frank A. Marshall, sob a sombra dos pinheiros de seu jardim, não escreveu apenas palavras; ele forjou na "bigorna do coração" um código de conduta que moldaria o caráter de milhões de jovens através das décadas. A leitura deste artigo nos faz compreender que a Ordem DeMolay nunca foi fruto do acaso. Ela foi o resultado da convergência entre o intelecto refinado de um jornalista dedicado e a visão expansionista de um líder vocacionado, ambos sob o amparo de grandes baluartes da Maçonaria, como Alexander G. Cochran. Que este achado histórico sirva como um lembrete solene de que cada palavra proferida em nossos Templos carrega o peso de uma "promessa de lealdade à consciência". Marshall plantou a bolota esperando que ela desse sombra a alguns poucos; hoje, caminhamos sob a vastidão dessa floresta imponente que ele e Land cultivaram. Que saibamos honrar cada lição, cada passo e cada voto, preservando a pureza dessa semente que floresceu em fraternidade.

Guilherme Zem – ID5316
@demolay.arquivosehistoria


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